sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TEATRO DA S.I.T. - NOTAS E CRÍTICAS - 3


1924

OS AMORES DE MARIANA

O festejado grupo de amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense vai representar êste ano, em uma récita que se realiza no próximo sábado, no seu teatro, a linda opereta em 3 actos Os Amores de Mariana.


Esta peça é, certamente, a mais feliz das que Miguel Costa escreveu e dedicou aos amadores. De entrecho simples, com alguns tipos bem copiados do natural e situações cómicas que provocam o riso sem que para isso seja preciso recorrer à graçola pesada ou a ditos equívocos, os 3 actos têm a dar-lhes maior animação nada menos de 29 números de música alegre, saltitante, muitos dêles de sabor popular admiravelmente adaptados à acção da peça pelo inspirado maestro que foi Dias Costa. Se acrescentarmos que Amores de Mariana tem um excelente desempenho por parte dos amadores da Sociedade de Instrução Tavaredense, justificados ficam os aplausos que a opereta sempre conquista, sem que os espectadores mostrem sombra de cansaço.


A récita de sábado está sendo esperada com grande interêsse, não só porque a opereta se não repetirá em Tavarede, mas também porque nela retoma o seu antigo papel – a protagonista – a distinta amadora tavaredense Helena de Figueiredo, que possui uma voz bem timbrada, muito agradável e com os recursos que a partitura exigem.


Muitas pessoas desta cidade irão a Tavarede no próximo sábado aplaudir mais uma vez a festejada opereta.


No próximo dia 26 do corrente, domingo, o mesmo grupo de amadores vai a Quiaios, representar esta opereta no teatro do Grupo Instrução e Recreio.


Temos a certeza de que agradará ali plenamente, ouvindo os seus intérpretes merecidos aplausos. (Voz da Justiça – 14.10)

OS AMORES DE MARIANA

Foi uma noite esplêndidamente passada a de anteontem. O teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve uma enchente colossal, e a linda opereta Os Amores de Mariana foi mais uma vez ouvida com o maior agrado. Os aplausos foram entusiasticos em todos os finais de acto e nalguns números de música, que tiveram de ser bisados.


O desempenho bom, mantendo os créditos do nosso festejado grupo de amadores. Helena Figueiredo, a distinta amadora que agora reapareceu no seu antigo papel e que foi acolhida com uma quente ovação e muitas flores, cantou admiravelmente a dificil parte de Mariana. Idalina de Oliveira soube, como sempre, fazer-se aplaudir na Morgada, que interpretou com grande naturalidade e muita graça. António Coelho, o apaixonado Zé Piteira; António Silva, no seu caricatural e tão expressivo Morgado do Freixo; Jaime Broeiro, no sacrista sabichão de latinório; António Graça, insubstituivel no brasileiro Barnabé; António Santos, que fez o janota conquistador; e Francisco Carvalho, com muita naturalidade no Manuel d’Abalada – souberam manter a alegria da peça através dos três actos, devendo dizer-se que os amadores que se incumbiram de papéis secundários ajudaram bem, dando um agradável conjunto. Os coros estiveram afinados e certos, o que poderosamente contribuiu para a boa impressão geral.


Entre a assistência estavam muitas pessoas da Figueira e Buarcos.


No próximo domingo vão os nossos amadores representar esta opereta a Quiaios, no teatro do Grupo Instrução e Recreio onde, estamos certos, Os Amores de Mariana agradarão plenamente. (Voz da Justiça – 10.21)

NOITE DE S. JOÃO

Como previramos, o teatro da Sociedade de Instrução Tavaredense teve no último sábado extraordinária concorrência. Representou-se a opereta em 3 actos Noite de S. João, cuja lindíssima música agradou plenamente.


Coube o maior quinhão dos aplausos ao nosso amigo e distinto amador sr. António Maria de Oliveira Simões, cuja competência e bom gosto artístico ficaram bem revelados na forma brilhante como interpretou a dificílima partitura do professor António Eduardo da Costa Ferreira e ensaiou as vozes.


O que êle conseguiu, em pouquíssimos ensaios e através de várias dificuldades, dos nossos modestos amadores, que não possuem nenhuma cultura musical e alguns dos quais pela primeira vez representavam, foi muito, foi muitíssimo. Os aplausos que ouviu e as apreciações que todos fizeram ao seu trabalho foram merecidíssimos, porque não há dúvida nenhuma de que foi António Simões o elemento que mais contribuiu para o agrado da Noite de S. João.


Não há que fazer referência especial ao trabalho de cada um dos amadores. Todos, aparte deficiências naturais em amadores de aldeia, desempenharam bem os seus papéis. Alguns dos antigos amadores, como Idalina Fernandes, Jaime Broeiro e António Graça, confirmaram os seus créditos, merecendo citar-se o excelente tipo de António Santos; Virgínia Monteiro, que pela primeira interpretava um papel de responsabilidade, fez a característica com muita graça, imprimindo à D. Perpétua a preciosa nota de ridículo; José Cachulo (outro principiante), Maria Teresa de Oliveira, F. Carvalho, J. Maria Marques e os restantes ajudaram bem o conjunto. Uma rábula esplêndida: a de António Cachulo no Regente do Sol-e-dó.


Caracterizações primorosas, algumas de grande relêvo, do distinto artista que é Abel Santos; e scenários a carácter, de belo efeito, do sr. Rogério Reynaud.


A Noite de S. João, que é uma opereta de grande responsabilidade, repete-se no próximo dia 19, e então teremos ensejo de verificar que foram suprimidas as deficiências e hesitações que pudemos notar nesta primeira representação. (Voz da Justiça – 12.09)

OS AMORES DE MARIANA

Um grupo de amadores dramaticos de Tavarede veio no sabado ultimo ao Parque-Cine dar um espectaculo com uma opereta regional, cuja acção se passa nos arredores de Coimbra, segundo rezam os programas, e por tanto paredes meias com a nossa terra.


Fui assistir com um serto interesse, porque sempre gostei do teatro musicado, principalmente quando a acção se passa em qualquer das nossas provincias, algumas delas tão ricas em motivos para uma boa partitura. Os bons auctores é que vão escasseando.


As operetas do Pereira Correia são-me familiares, porque nunca deixei de assistir às suas representações, e apezar de bastante vista, ainda gosto do Barão de Antanholes, que tem musica bonita e bastante movimento de personagens. É uma opereta que vinca sempre em todos os que assistem às suas representações. O que não se dá com Os Amores de Mariana, que é uma opereta inferior e com passagens até pouco decentes, diga-se a verdade.


Do desempenho pouco há a dizer, porque se tirarmos Antonio Coelho, que se mecheu à vontade, e Helena de Figueiredo, que tem geito, nada mais se aproveitou. Pena foi que o primeiro se não tivesse mantido na scena da embriaguez, porque teria sido perfeito e que a segunda tivesse pronunciado um tromento que a meu ver devia ter dito tormento. De resto, tem boa voz e canta com certo gosto.


A marcação pareceu-me deficiente. Não percebi que o André, charlatão, surgisse no palco com a massa coral, em lugar de ali aparecer casualmente, o que deu a impressão de que entre ele e os caponios havia o melhor entendimento. Ou não?


Tambem não compreendi a situação de Ernesto de Melo (Antonio Santos) depois de Mariana (Helena de Figueiredo) lhe ter dado com a tampa ter-se mantido no palco, assistindo à alegria que reinou à volta do Zé Piteira (Antonio Coelho), quando este teve a certeza do amôr de Mariana. Julgo que ele devia ter desaparecido, porque havia sido preterido pelo rival.


E para terminar com os meus reparos devo dizer que não achei proprio que no côro Brazileiro di água dôce, os comparsas, todos dos arrabaldes de Coimbra, québrassem tão harmonicamente a módinha brazileira. Lá que o Pancracio a exibisse e a massa coral se manifestasse de qualquer maneira propria do seu temperamento e educação, compreendia-se, agora que a secundassem com tanta geiteira é que se tornou reparavel.


Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrojo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior.


A musica, além de cédiça, está coordenada muito à ligeira e foi interpretada muito deficientemente. Pena foi que assim sucedesse, porque a orquestra estava bem organisada e apta a executar uma partitura de mais vulto.


Mas o fim principal dos amadores tavaredenses foi arranjar dinheiro para o seu cofre, e esse atingiram-no, porque a casa estava quasi cheia, o que devia ter produzido uma boa receita.
Felicito-os por tal motivo. (O Figueirense – 12.18)

OS AMORES DE MARIANA

O meu vizinho Roque Maleitas, que teve artes de arrancar-me por algumas horas ao meu pacato isolamento na noite de 13 do corrente para ir ao Parque ver Os Amores de Mariana, opereta desempenhada pelos amadores dramáticos da Sociedade de Instrução Tavaredense, surgiu há pouco à minha porta brandindo com indignação e cólera um número do Figueirense. Indagada a causa daquele insólito estado de alma, Roque Maleitas, sempre bufando e apontando com dedo sinistro a 5ª coluna da 2ª página da já citada luminácia, desabafou nestes termos:


= Tome lá! Leia! Leia as pachonchadas dum tal A P. Veja o desplante do farçola! Parece mordido da tarântula ou que recebeu requerimento para dizer mal de tudo por conta alheia!


= Oh! Homem de Deus, sossegue, aplaque essas iras e conversemos tranquilos como bons vizinhos e amigos. O homemzinho não há de ser tão mau que ache tudo péssimo. Ora vamos lá a ver isso.


Após lida com a atenção que o caso requeria a crítica teatral do sr A P, eu, para julgar com imparcialidade e justiça, chamei em meu auxílio as minhas impressões do espectáculo, e, confrontando-as com as manifestadas no Figueirense, declarei ao amigo Roque que na verdade não concordava com aquelas opiniões, embora fôssem abalizadas, a julgar pelo tom catedrático e categórico, que é de morrer a rir como a Maria Rita. (Por tamanha ousadia peço, curvado e reverente, tôda a desculpa a êste conspícuo Sarcey, mas tenho por hábito pensar pela minha cabeça e pôr sempre de lado sentimentos que possam influir no meu ânimo. A minha acanhada capacidade não permite ir tão longe quanto eu desejaria, mas conservo sempre presentes as nobres e altivas palavras de Juvenal: Vitam impendera vero – consagrar a vida à verdade!).


Vou pois, vizinho Roque, com a franqueza e lealdade que se devem a um amigo, dizer de minha justiça e fazer a contestação dos erróneos pontos de vista do crítico A P, que se me afiguram castelos de cartas, derrubáveis com um leve sôpro.


Pela leitura inteira do relato salta logo aos olhos que o crítico A P mete o bedelho e aprecia duma assentada a parte literária da peça, a parte musical e orquestral e emfim a parte puramente scénica. Apre que é ter talento como o diabo! Outro que não A P, com tanta competência às costas por certo que largaria asneira nalgumas das ditas partes. Mas o perentório A P não esteve com meias medidas, largou a dislatar a torto e a direito.


= Vizinho e amigo, observou Roque Maleitas, agora que estão em moda as designações por iniciais, as dêste figurão não poderiam traduzir-se por Asno Perfeito? Que lhe parece?


= Amigo Roque, tanto pode dar-se essa tradução como outra adequada. Eu, sem repelir a que lhe dá, que fica a matar, optaria pela de: - A P – a pedido – e cá tenho as minhas razões. Mas nada de divagar e deixe-me dizer-lhe o que penso.


Em tôdas as operetas, ainda as mais cuidadas, como o Solar dos Barrigas, o Burro do Sr. Alcaide, a Noite e Dia, Os Sinos de Corneveille e outras, o entrecho, a efabulação, emfim a parte meramente literária resumem-se em fantasias quási sempre ilógicas, desenrolando-se e caminhando a acção com o fim evidente de exibir música, e para isso não se despreza o mais insignificante episódio. Os Amores de Mariana, produto dum artista sem mira a ostentar resplendor na cabeça, é uma peça modesta, sem pretensões e portanto imerecedora duma crítica ríspida, tão radical e exterminadora que a todos se afigura feita de encomenda. Para que evocar nêste caso o Barão de Antanholes, que não é uma peça interiça, nem vinca cousa alguma, como conselheiramente declara o A P? Ninguém leva a mal ao exigente crítico a familiaridade com as operetas do sr. Pereira Correia. Nesse ponto goza de tanta liberdade como certos animais importunos... Depois, amigo Maleitas, afirmar que Os Amores de Mariana têm passagens pouco decentes é mostrar desconhecimento da Giroflé – Giroflá, da Perichole, da Mascote e tantas, tantas. Cá por mim não lhe vi cousas próprias a provocar caretas a um pater – familias ou a fazer córar uma donzela beiroa. Com tão assanhadiço pudor não deve o austero Aristarco pôr os pés no teatro mas deve ficar em casa bebendo capilé de cavalinho e lendo a Imitação de Cristo. Referindo-se ao desempenho, repare o amigo Roque, o tremebundo crítico manobrou uma rêde varredura! Por magnânina complancência escaparam Helena de Figueiredo e António Coelho; mas não poupou da indispensável ferroada. Para mim, meu estimável vizinho, Helena tem mais do que jeito, tem compreensão, apresenta-se sem bisonho acanhamento, possui voz maleável, canta agradavelmente, e bem melhor que várias belfécias que às vezes nos impingem as secções dramáticas da Figueira, que em questões de recta pronúncia, metem num chinelo o Padre António Vieira.


António Coelho pode desafrontadamente pedir meças aos esperançosos amadores em que A P descobre futuros Talmas. Tem intuição clara das situações e não merece na scena da embriaguês o reparo sandeu. Jaime Broeiro, que é um amador caracteristicamente cómico, apreciável; António Silva, que exibiu um morgado típico; Idalina Fernandes, que em scena não deixa surpreender a mais passageira gaucherie, e os demais rapazes só mereceram do peitado crítico o esmagador ditame: Nada mais se aproveitou!


Este articulista de afirmações acácias, as quais não passam de lérias pacóvias, não compreende nem avalia o esfôrço pertinaz, o trabalho paciente e exaustivo, quási heróico, de preparar criaturas, umas insuficientemente cultas e outras mais ou menos rudes e pô-las em condições de se exibirem em público. Não compreende nem avalia esse trabalho colossal, e daí o artiguelho inábilmente acintoso, verdadeira cornucópia de baboseiras, despejadas com ares doutorais. Sentenceia êle que a marcação lhe parece deficiente. Vê-se que disso não percebe êle nada e nem sequer sabe o que seja marcação. Melões confunde com batatas. Desconfio, amigo Maleitas, que tôda emburundanga visa o José Ribeiro, que é o ensaiador. Suponho que errou o alvo e perdeu o sem tempo e feitio, porque êste belo rapaz tem como lema o conceituoso provérbio árabe: “Os cães ladram mas a caravana passa”.


Asseguro-lhe meu prezado Maleitas, que não é hercúlea empresa desfazer o resto da meada da estultas frioleiras dêste Aristarco pataqueiro, mas a conversa já vai longa. Não quero todavia deixar sem reparos a preciosa observação, talvez um pouco ousada que reza da forma seguinte: “Em Tavarede é natural que estes senões não se notem, agora nesta cidade, onde nem sempre agradam os nossos melhores amadores e muitas vezes até artistas de carreira, foi arrôjo exibir uma opereta inferior, mesmo muito inferior”.


Apesar de residir neste velho Buarcos, você sabe, amigo Maleitas, que a tal cidade disfruta a justa fama de ser um imenso foco de civilização, um copioso alfôbre de sábios e de altas mentalidades, que em crítica de arte são bem mais exigentes que os dilettants do teatro Scala, e tanto assim que amadores ensaiadores (todos em primô-castello!) são criaturas que deram as suas provas passando em seguida à categoria de notabilidades consagradas. Os habitantes de Tavarede e do resto do concelho são todos bárbaros e selvagens. Como o vizinho leu, o crítico encapotado achou cediça a música coordenada à ligeira e interpretada deficientemente. Foi realmente um êrro de palmatória, é preciso confessar, porque a opereta, popular e despretenciosa como é, devia ser ornada com música dos Huguenotes ou do Barbeiro de Sevilha, e interpretada, está bem de ver, por artistas da envergadura da Patti, da Borghia Mamo e do Caruso.


Terminando, amigo Maleitas, e sério, sério, acho muito mais decente e honesto, mais digno de elogios e incitamentos que o grupo dramático da Sociedade de Instrução Tavaredense empregue em coisas teatrais o tempo que tira aos seus labores ainda com o risco de sofrer as zagunchadas de zoilos peitados e de língua corrosiva, em vez de seguir o exemplo da jeunesse doirée dos finitos de papo-sêco que desperdiça os seus ócios nos gineceus da R. da Cêrca e nos santuários recônditos da batotinha amena.


De resto, vizinho e amigo Maleitas, que assistiu à representação da modesta opereta, abismado com o severo julgamento dêste crítico plugúrrio, aplicará ao mesmo a sublime quadra, que bem assenta em casos tais:


Pilriteiro que dás pilritos
Porque não dás coisa boa?
Cada um dá o que tem
Conforme a sua pessoa.


Sr. Director, pela publicação destas linhas, que pretendem simplesmente fazer um pouco de justiça a quem a merece e enfreiar filáucias mal intencionadas, ficar-lhe hei sumamente grato. Um leitor da “Voz”. (Voz da Justiça – 12.26)

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