sábado, 29 de setembro de 2012

Quadros - Os Senhores de Tavarede - 23


CARTA  A FOLHAS 87 – SUBSCRITO: ILMO.SR. JOÃO GREGÓRIO DE MELO, ETC…. DO SEU AMIGO THYPALOS - Meu Joaquinzinho e Francisquinho:
            Não tenho querido mandar aí mais cedo, para saber com exactidão tudo quanto se passou, por temer que a casa tenha estado vigiada. Escrevi ao (?), porém ele não me satisfez circunstanciadamente quanto desejava saber; fui porém instruído de quanto foi bastante para me magoar e afligir, sabendo ter sido presa a Fidalga e teu bom pai e os dois manos do dr.Quanto (?), a mim cada vez que considero a casual maneira porque escapei à tormenta, dão-me suores frios, pois na verdade o caso parece ser mais milagroso que natural!!
            A portadora desta é uma senhora capaz e digna de toda a confiança, por ela peço me digam tudo quanto tem havido relativamente aos presos, e em que figura estão as coisas; se eu não temesse alguém do bairro, tinha-me metido em uma sege e tinha já lá ido; digam-me se os da diligência perceberam a minha evasão pelos trastes que ficaram no quarto, enfim, instruam-me de tudo, pois estou impaciente por saber tudo. Sobretudo o que mais me admira é a prisão do padre e dos dois manos! Façam à mãe as minhas recomendações mostrando-lhe os aflitos sentimentos do meu coração, e o mesmo, havendo ocasião, aos presos todos.
            A caixa de prata que deixei em cima da mesa já sei que não apareceu; paciência, vão-se os anéis e fiquem os dedos. Estavam lá 3 lençois e umas pretas, dirão se apareceram. Adeus, escrevam e digam tudo. Do coração, amigo e obrigado. Thypalos.

OUTROS TESTEMUNHOS - Joaquim Pessoa de Amorim, 28 anos, natural de Castelo Branco, caixeiro do negociante francês, Monsieur Levit, solteiro, morador em casa de D. Antónia, ao Grilo.
            Padre José Viitorino de Sousa – capelão de D. Antónia, filho do dr. Luiz Manuel de Sousa, já falecido, e Mariana Inácio Domitília (?), natural de Formoselha, freguesia de Santo Varão, termo de Montemor-o-Velho. Baptizado e criado em Montemor-o-Velho. 63 anos. João de Melo, administrador da casa. Ele Padre acusado do crime de tumulto na relação do Porto, pela abadessa e mais religiosas do Convento de Santa Clara, de Coimbra.

TESTEMUNHAS CONTRA D. ANTÓNIA - Manuel Duarte, com loja de bebidas, na Rua Direita de Xabregas nº 15, comissário de polícia na mesma rua. 54 anos. Que foram presas mais pessoas das províncias que em casa de D. Antónia estavam refugiados, por consentimento da Senhora da casa, seu mordomo e capelão: Joaquim Pessoa da Silva Amorim (?) à procuradora da casa e nessa qualidade lhe tinha pedido 7.200, que depois lhe negara passados dois meses e ainda o ameaçou quando lhe pedira… “que passado um mês ele lhos pagaria…”
1)       Francisco Joaquim da Silva, com armazém de vinhos, na Rua Direita dos Anjos.
2)       Tomé da Maia, mestre alfaiate, morador no Pátio da Tavarede, na Rua Direita de Xabregas.
3)       Joaquim António Brandão, fazendeiro, com venda de vinho na Estrada de Chelas.
4)       Bartolomeu de Abreu Vieira, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no Beato.
5)       Pedro Abdon José da Costa, soldado do 3º batalhão de voluntários realistas de Lisboa, morador no palácio do Exmo. Marquês, Monteiro mor, na Rua Direita de Xabregas.
6)       João Maria (?), idem soldado, etc.
7)       Henrique José Barreiros, guarda-roupa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
8)       José Roque, guarda-roupa do Exmo. Marquês de Olhão.
9)       Isabel Joaquim, casada com Joaquim Meireles, com casa de Povo, na Rua Direita de Xabregas.
10)   José Martins, com casa de mercearia no cunhal das Rolas, na Rua das Partilhas, e com armazém de vinhos no Pátio da Tavarede, ao Grilo.
11)   Francisco António Paredes, criado de farda do Exmo. Marquês de Olhão.
12)   Jácome Borrati, amanuense da secretaria de Estado dos Negócios de Guerra, morador no Beato.
13)   José Luiz Ferreira, com loja de bebidas no Largo do Beato.
14)   José Pais, criado do Exmo. General Vicente António.
15)   Manuel António Rosa, boticário, morador no Grilo.
16)   Manuel Pina Barbosa, guarda-roupa do Exmo. General Vicente António.
17)   Maria Perpétua, solteira, moradora em casa do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
18)   Ana do Nascimento, casada com Francisco Parodi, criado do Exmo. Marquês, Monteiro-mor.
19)   Joaquina Rosa Tibúrcia, solteira, moradora no Beato, Largo do Forno.
               
O QUE DIZ A 6º. TESTEMUNHA (AS OUTRAS MUTATIS MUTANDIS) -  A 14 de Dezembro de 1832 intimida a ré D. Antónia, no Convento de Santa Joana em como ficava à disposição da Comissão-Crime, criada pelo real decreto de 15 de Agosto de 1828.
            Em Fevereiro de 1833, D. Antónia requereu para livrar-se (?) em apartado com as seguintes pessoas de sua família a saber: João de Melo Barreto d’Eça e seus filhos, José Anastácio, José Miguel e João – deferido em 16 de Fevereiro de 1833. Até 13 de Março de 1833, embora deferida a pretensão, não trataram de semelhante objecto e para conhecer os autos e nada mais consta do processo a respeito de D. Antónia Madalema.
            Disse a 6ª. Testemunha: “- que sabe, por ser público, que foi presa D. Antónia Madalena de Quadros, porque em sua casa existiam diferentes réus de lesa-majestade refugiados, tais como Joaquim Pessoa da Silva Amorim, António Manuel da Silva Vieira Broa, José Maria Rodrigues e um doutor Paula, dos quais os três primeiros ali foram presos, e que tanto ela, como o seu mordomo e filhos, e um padre José Vitorino, que se diz seu capelão, não gozam de boa opinião, nem são afectos ao governo monárquico, antes pelo contrário, inimigos decididos da Augusta Pessoa de El-Rei Nosso Senhor. E mais se declarou que ele, Mordomo, e seus colegas e sócios no fim do ano de 1829 e princípio de 1830 tocaram frequentes vezes o hino revolucionário francês, e só deixaram de o fazer depois que para isso foram advertidos, e que mais sabe, por ouvir dizer a uma criada do Exmo. Senhor Marquês, Monteiro-mor, Maria Perpétua, que os mencionados individuos se banquetearam frequentemente e que no meio destes banquetes davam vivas a D. Pedro IV, e que também sabe pelo presenciar que na ocasião em que entrou a esquadra francesa mostraram um grande prazer e regozijo. (cad. 25 – pag. 9)

            D. Antónia Madalena, a 10ª. Senhora de Tavarede, foi condenada ao pagamento de 300 000 reis, sendo duas partes para a Casa Pia e uma para os oficiais e soldados da diligência, por conservar de cama e mesa na sua casa os réus de Lesa Majestade. Esta sentença foi, porém, revogada.
               
            Presume-se que a Morgada de Tavarede ainda se encontraria no Convento de Santa Joana no dia 24 de Julho de 1833, quando Lisboa foi tomada pelos liberais. Com a abertura da prisão aos presos políticos, certamente que D. Antónia Madalena terá regressado ao Palácio do Grilo, onde, a 26 de Fevereiro de 1835, faleceu, sendo sepultada no cemitério do Alto de S. João.

            Numa das notas que encontrei e que referi no 1º. volume de ‘Tavarede – A Terra de Meus Avós’, diz-se que segundo a tradição, D. António Madalena foi enterrada ainda viva no convento de Santo António, mais referindo que se desconhece a origem desta tradição. A verdade, no entanto, é que o registo do óbito de D. Antónia Madalena de Quadros e Sousa se encontra nos registos paroquiais da freguesia do Beato, Lisboa, referentes ao período de 1821 a 1852.

            Terá, na verdade, a fidalga tavaredense sido trasladada para o convento de Santo António? Parece que esta hipótese será pouco crível, pelo que os restos mortais da 10ª. Senhora de Tavarede repousarão para sempre em Lisboa.

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