sábado, 5 de janeiro de 2013

O Associativismo na Terra do Limonete - 4


As primeiras notas do Associativismo - 2
        
 Em Janeiro de 1880, em “O Comércio da Figueira” escreve-se que “A Sociedade Recreativa que este ano já tem dado algumas representações em Tavarede, leva no próximo sábado, dia 10, à cena o “Auto dos Reis Magos” e termina o espectáculo com o desempenho de algumas comédias”. Esta Sociedade Recreativa pensamos que estivesse instalada na Casa do Terreiro, de João José da Costa, o grande benemérito da nossa terra. “… vendo as péssimas condições em que os amadores de Tavarede davam as suas récitas na desmantelada casa do Terreiro (sociedade antiga?), e convencido das vantagens do teatro como meio de cultura e educação do povo, transformou o prédio num, para o tempo, excelente teatro“.

         E continuemos com Mestre José Ribeiro em “50 Anos ao Serviço do Povo”: “… Por certo não haveria melhor em terras pequenas como a nossa. Todos os lugares para os espectadores eram numerados, distribuídos pela plateia, um balcão em volta desta e, por cima, um outro balcão que ainda existe. O palco era dividido em planos e construído em corpos. Apetrechado com varanda e urdimento com suas carreiras equipadas de girelas e cordas para bambolinas e panos. Quanto a cenários, ainda ali conhecemos 3 salas pintadas em pano, primorosamente montadas em boa madeira, e bastidores de campo aplicáveis a tangões que giravam em calhas; dispunha-se ainda duma rotunda, o que bem revela o desejo de que nada ali faltasse. A iluminação era a petróleo, para o que foram mandados fazer candeeiros próprios aplicáveis às gambiarras e ribaltas. O pano de boca, tendo pintada uma vista do palacete dos Condados, onde João José da Costa residia com sua esposa, é o mesmo que ainda hoje está a servir nos espectáculos da Sociedade de Instrução Tavaredense (1954)”. Que diferença para a antiga sala de espectáculos da “Casa do Ferreira”!!! Este teatro terá sido construído entre os anos de 1882/1884.

         Alguns anos mais tarde foi o 3º. Conde de Tavarede que, quando mandou fazer as obras de remodelação no Palácio, ali instalou uma nova sala de teatro a que deu o nome de “Teatro Duque de Saldanha”. Como se pode observar, as velhas associações dramáticas foram-se dissolvendo, agrupando-se os amadores nos novos teatros, que lhes ofereciam melhores condições para a sua actividade amadora.

         Mas aquelas velhas associações não acabaram de todo. Em Dezembro de 1884, “… na noite de quinta para sexta-feira (25) houve presépio em Tavarede, porém, no meio do espectáculo, abateu parte do soalho da casa, indo parar à loja alguns dos espectadores! Houve ferimentos, mas de pequena importância. Assim foi bom”. Publicou esta notícia o jornal Comércio da Figueira. Também não conseguimos localizar a associação onde houve este pequeno acidente.

         Como se verifica, são muito reduzidas as notícias publicadas sobre o associativismo na nossa terra. Há a certeza, no entanto, de que tanto o teatro como a música estiveram sempre em actividade, em diversos locais dos já mencionados. E não eram somente os tavaredenses que aqui apresentavam os seus espectáculos. Em Fevereiro de 1885, “… num teatro em Tavarede, dá o seu espectáculo uma troupe de artistas dramáticos que ultimamente trabalharam em Montemor. Levam à cena as engraçadas comédias em um acto “Não há fumo sem fogo”, “Criada impagável”, “Triste fado” e “Descasca milho” e, dias depois, a mesma companhia aqui representará as comédias “A cerração do mar”, “Uma experiência”, “União ibérica”, sendo também recitada uma poesia dramática.

         Uma outra notícia, também de Fevereiro de 1885, diz que “no próximo sábado, 28, vai à cena pela primeira vez no novo teatro de Tavarede, o drama em 3 actos “O Coração dum bandido”. Deduzimos que o referido novo teatro seria o que João José da Costa mandou construir na sua casa do Terreiro. Este espectáculo repetiu-se no domingo seguinte, 1 de Março, e, além do referido drama, o programa era completado com “O meu nariz”, cena cómica e ainda uma farsa. Acrescenta a notícia que “tomam parte nos espectáculos alguns curiosos da localidade”.

         Os espectáculos sucediam-se. Poucos dias depois foi levado à cena, no mesmo “novo teatro de Tavarede”, o drama em 3 actos “Justiça de Deus” e a comédia em 1 acto “O cego avarento”. Digno de nota o facto de João José da Costa, depois de ter exercido os mais altos cargos administrativos na Figueira da Foz, ter aceitado e exercido o lugar de presidente da Junta da Paróquia de Tavarede, durante a primeira metade de década de 1880/1890. Mas a actividade de João Costa na nossa terra foi mais longe. Além de ter mandado construir o teatro, também foi ensaiador do seu grupo cénico. Vejamos uma notícia inserida no jornal “Comércio da Figueira”, em Abril de 1885:

         “Hoje à noite dá uma troupe de curiosos uma récita particular no teatro de Tavarede, levando à cena o drama em 3 actos “A associação na família” e a comédia num acto “Malifício na família”. É de crer que o desempenho seja correcto, devido aos esforços do nosso respeitável amigo, o exmo. Sr. João José da Costa, que da melhor vontade acedeu ao pedido que lhe fizeram para tomar a direcção dos ensaios. Folgamos em ver a dedicação daqueles filhos do trabalho, que tão bem empregam as horas que lhes restam, no seu labor associativo, colhendo assim bastante instrução”.

         Os elementos escasseiam. Continuava a haver teatro e, certamente, a música já era uma realidade. Mas, como adiante veremos, foi na década seguinte (1890/1900) que o associativismo se firmou, com sólidas raízes em Tavarede. Já sabemos que, além do Teatro do Terreiro e do Teatro do Palácio, ainda resistiam algumas das velhinhas “associações dramáticas”, que funcionavam nas lojas de algumas casas particulares. Ainda seriam associações de familiares, mas com toda a certeza já abertas a amigos e vizinhos. Prossigamos com as nossas notas.



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