sábado, 25 de janeiro de 2014

Operetas em Tavarede - 1




Estes ‘Serões’ foram escritos por ocasião das comemorações do centenário da Sociedade de Instrução Tavaredense. Tinham uma finalidade: recordar o percurso do teatro nusicado feito na nossa terra pelo grupo dramático desta colectividade.

         Na verdade, quem se recordava daquelas operetas representadas há tantos anos e que, segundo comentários e críticas publicados em jornais figueirenses, e não só, eram espectáculos verdadeiramente maravilhosos, que encantavam o povo que, após o seu laborioso trabalho, procurava assistir a estas representações de que tanto gostavam?

         O teatro musicado tinha uma tradição na nossa terra. Tanto assim que, além das mais diversas operetas escritas, musicadas e representadas em imensos palcos por esse país fora, muitas houve que foram escritas e musicadas propositadamente para o nosso grupo cénico, a maior parte delas, senão mesmo todas, com a acção a decorrer na terra do limonete, e com as quais davam a conhecer aos seus conterrâneos, os usos e os costumes, as tradições de Tavarede.

         Mais tarde, tivémos a imensa fortuna de aprender a história da nossa terra, primorosamente contada nas operetas-fantasias escritas pelo saudoso tavaredense e mestre de teatro José da Silva Ribeiro, com lindíssimas músicas dos nossos inspirados compositores musicais, que se chamaram António Maria de Oliveira Simões e Anselmo Cardoso Júnior.

         Naturalmemte que procurámos ir um pouco mais longe, recordando outros autores e compositores tavaredenses, como João dos Santos, nos textos, e João Nunes da Silva Proa e Gentil da Silva Ribeiro, nas músicas.        Mas os nossos arquivos, especialmente os musicais, não nos guardaram tudo quanto queríamos e, desta forma, ficaram limitadas um pouco as nossas possibilidades de recordar tudo quanto pretendíamos.

         Conheciamos algumas cantigas mais antigas que haviam sido recordadas nas peças de Mestre José Ribeiro. Eram poucas. Recordou-nos que, na década de 1940-1950, se cantava constantemente em Tavarede. Era no rio, enquanto lavavam as roupas. Era nas terras, erguendo as enxadas e tratando das sementeiras e colheitas, cantando ao mesmo tempo, como se assim o trabalho se tornasse menos duro. Era nas casas e quintais enquanto tratavam da vida caseira, cozinhando ou limpando a casa e, nalguns casos, que bem nos lembram, enquanto costuravam com as velhas máquinas, acionadas pelo pedal.

         Era a nossa pretensa colaboração nas festas do centenário de tão prestimosa colectividade. E pensámos fazer em quatro serões, os quais teriam a seguinte ordem:

1º. – de 1925 a 1927 – ‘LIMONETE OU LÚCIA LIMA?’ – O teatro de João José (João Gaspar de Lemos Amorim e José da Silva Ribeiro).

2º. – de 1928 a 1929 – ‘O CAVADOR, A CIGARRA E A FORMIGA’ – O teatro de Ele e Eu (José da Silva Ribeiro e Alberto Correia de Lacerda).

3º. – de 1931 a 1935 – ‘DO POVO E PARA O POVO’ – o teatro de Júlio Diniz.

4º. – de 1950 a 1983 – ‘UMA CHÁVENA DE CHÁ… DE LIMONETE’ – O teatro de Mestre José Ribeiro.

         Tínhamos previsto a realização destes serões no salão nobre da colectividade. A nossa convicção era de que a principal utilidade dos mesmos era voltar a reunir todos os antigos amadores ainda vivos e convivermos com eles, procurando recordar não só as antigas operetas mas, especialmente, as muitas cantigas que as recheavam e que a crítica tanto elogiara.

         Na verdade, todos conhecemos e lembramos as peças aqui representadas e escritas por Mestre José Ribeiro, como, por exemplo, ‘O Sonho do Cavador’. Mas o que seria desconhecido da maioria, era que a versão agora apresentada, embora respeitando o tema de fundo da mesma, havia sofrido grandes alterações feitas à versão original. Por outro lado, alguém se recordaria daquelas outras operetas, de que ainda às vezes se falava, como ‘Em busca da Lúcia-Lima’, o ‘Grão-Ducado de Tavarede’, ou, até, ‘A Cigarra e a Formiga’?

         Pareceu-nos que seria uma óptima oportunidade para recordar aquele teatro tão antigo. Foram peças que alcançaram enormes êxitos, com críticas tão favoráveis e, com toda a certeza, pelo menos os actuais amadores gostariam de as conhecer. Metemos mão à obra e o resultado foram os quatro serões acima referidos.

         Claro que tudo isto só foi possível graças à disponibilidade do nosso amigo e conterrâneo, o maestro João da Silva Cascão, que prontamente aceitou o desafio que lhe fizemos. E começou, de imediato, a gravação das músicas que havíamos escolhido para o primeiro serão.

         A nossa intenção, e foi isso que se fez quanto ao primeiro serão, era juntar as pessoas, as intervenções serem feitas lendo o escrito, e cantando as cantigas, com as gravações passadas numa aparelhagem sonora. Também é de referir que os serões foram projectados para serem pouco maçadores. Cerca de hora e meia, contando um pequeno intervalo. Certamente todos ficariamos a ganhar alguma coisa. Saber o que os nossos antepassados aqui representaram, nas velhinhas tábuas do ‘velhinho’ palco já desaparecido, ao mesmo tempo que seria uma bela oportunidade de prestarmos a nossa homenagem à memória de todos aqueles que, tão dedicadamente, serviram a Sociedade de Instrução Tavaredense e o teatro da nossa terra natal.

         Mas, como se recordarão, o programa das comemorações do centenário, apesar de decorrer ao longo de um ano, foi muito sobrecarregado e os serões foram sendo adiados. Somente no dia de S. Martinho, o padroeiro da nossa terra, foi resolvido fazer um ‘magusto’ oferecido aos sócios, aproveitando para dar início às nossas intenções.

         Mudámos o local. Foi no nosso pavilhão desportivo. E, como se verificará por algumas fotos, tudo correu bem e todos gostaram. Mas, e ainda bem, foi espectáculo único. As canções, muitas delas desconhecidas de todos, eram tão bonitas que nos levou a mudar o nosso objectivo inicial. Porque não criar um grupo coral para recordar estas e outras cantigas do nosso teatro?

         A ideia agradou, houve alguns incentivos e poucos apoios, mas a intenção vingou e foi para frente. Não apresentámos mais nenhum dos programados serões, mas, a anteceder a sessão solene comemorativa do aniversário de 2006, o grupo coral fez a sua primeira apresentação ao público, tendo, a partir de então, continuado uma actividade muito importante, sob a direcção do maestro João Cascão.

         Restará dizer, no entanto, que a nossa intenção quanto aos serões, foi positiva. Aqcabou por gerar um agrupamento coral que é orgulho de Tavarede. E para não se perder o trabalho realizado, resolvemos fazer este caderno. Alguém que o leia, mais tarde, ficará a conhecer algo sobre o teatro musicado apresentado na terra do limonete.





  Aspecto do sertão ‘Limonete ou Lúcia-Lima?’


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